segunda-feira, 10 de maio de 2010

Pequenos grandes instantes

O dia tem 24 horas e a gente utiliza em torno de 16 dessas "vivendo" a nossa vida e as restantes 8 horas em contato direto com nosso inconsciente enquanto dormimos. Dessas 16 horas em que estamos "vivendo", gostamos de pensar que estamos fazendo a coisa certa rumo a um futuro melhor, que estamos construindo as bases que um dia nos levarão à felicidade de se aposentar feliz e morrer tranquilo. Grande parte do esforço que fazemos possui como objetivo o bem estar final de um processo que começa com uma idéia, passa por muitos fracassos, cansaços, momentos de sucesso, reviravoltas e enfim, termina (bem ou mal). A conclusão de um propósito é o que motiva a busca, a felicidade em si é um propósito e a busca é a própria existência. No fundo viver é fazer um esforço sobre-humano para tentar se sentir bem o tempo inteiro e isso é exaustivo demais.

Como a busca é a vida, a maioria do nosso tempo é de fato preenchida por ela. O tempo que a gente gasta para tentar "chegar" é o tempo em que estamos vivendo efetivamente. O mais estranho é que a idéia de uma conclusão positiva é o que faz com que a busca seja menos desagradável e estimula o andar da carruagem. Esse conceito impreciso e abstrato de um final feliz é o que mantém a linha tênue que separa um dia (ou uma vida) feliz, da depressão absoluta pendendo para o lado bom.

Eu penso, penso, penso e penso de novo, tentando encontrar uma solução para o problema do mal estar contínuo inerente à eterna busca ambiciosa a qual eu me propus e eu sei exatamente a resposta deste problema. Mas o conceito no qual se baseia a minha resposta possui uma falha lógica terrível. Os demônios da angústia e da ansiedade vão embora quando a mente se distancia do problema e se distrai com banalidades. Mas a mente não é uma entidade objetiva controlável apenas com o poder da lógica e da razão. Essa é a falha lógica da minha resposta para esse que talvez seja o maior problema da vida humana.

O mais incrível de tudo é que eu encontro a resposta para esta problemática quando não estou pensando nela. No meu trajeto de carro diário da minha casa à Universidade, espeto meu pen-drive na entrada usb do meu carro e coloco no álbum Pleasant Dreams dos Ramones e quando vejo estou realmente vivendo o meu momento e não buscando a conclusão ambiciosa que tanto me perturba. O volante do meu carro vira uma bateria e naquele momento eu sou o Joey Ramone cantando para uma platéia de punks agitados que não pensam em nada, apenas balançam a cabeça e ouvem o som que sai dos amplificadores no ginásio. A minha mente se transporta, a resposta é encontrada, a vida faz todo o sentido, o mundo fica bom, viver é legal demais naquele breve instante, o mundo é um show de rock, tudo isso dura os 15 minutos da minha pequena viagem, até que chego finalmente ao meu destino e sou obrigado a desligar o som. Nesse instante cruel a realidade cai a tona e eu me lembro (infelizmente) de refazer aquela incômoda pergunta a qual só se consegue responder quando não se pensa nela.

E o ciclo continua indefinidamente... até a próxima música da minha banda de punk rock predileta.

Um abraço do Caverna!

3 comentários:

Anônimo disse...

Qdo vivemos um momento difícil e de emoções contraditórias nos sentimos numa louca gangorra sentimental.
Suas palavras me fizeram pensar em Rilke aconselhando um jovem q pretendia ser poeta, mas tinha dúvidas sobre seu talento. Numa de suas cartas Rilke diz: "... bem sinto q nenhum homem pode responder às perguntas e aos sentimentos que têm vida própria no âmago de seu ser. ... O senhor é tão moço, tão aquém de todo começar que lhe rogo, como melhor posso, ter paciência com tudo o que há para resolver em seu coração e procurar amar as próprias perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma muito estrangeiro. Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta. ..." Faça assim tb. Viva um dia de cada vez. Seja como a árvore que não apressa sua seiva para amadurecer. A paciência é tudo. Um abraço carinhoso da tia Lourdinha

Juliana disse...

O problema de se pensar demais sobre algo é quando não temos a solução para aquilo. Não adiantará perder tempo em cima do problema e matutar nele eternamente, pois o nosso ponto de vista está "viciado" naquele momento. Enxergamos as coisas com uma ótica distorcida e que não nos auxilia a encontrar a tão querida solução. É como correr atrás do próprio rabo. hehehe Eis que, ao nos descontrairmos com outras coisas, "esquecermos" provisoriamente o problema, quando voltamos a ele, conseguimos enxergar finalmente o que antes era nebuloso. Ou seja, que aquilo que perseguíamos era só um rabo (no bom sentido metafórico. ahahaha).

O que era difícil, torna-se simples.

E assim seguimos.

O problema está em quando pensamos demais. Muitas vezes isso atrapalha mais do que ajuda. Pois a nossa mente teima em nos enganar algumas vezes.

E o ciclo da vida está enraizado nas nossas buscas. O que nos faz viver é estar em busca de algo, sempre. A graça está no esforço de se alcançar a montanha e não estar no topo dela. Ao chegarmos no topo, temos uma satisfação momentânea. Sentimos aquela brisa, abraçamos aquela paisagem e nos sentimos realizados. Mas isso é só por um tempo. Ao olharmos para o lado, exergaremos outra montanha ainda maior e mais desafiadora. E a vontade de tentar explorá-la nos irá mover e buscar passar novamente por toda aquela escalada difícil. E aí está o término e o início de mais um ciclo.

=))

Como diria o Osho, vc meditou com sua música durante esses pequenos 15 minitos e se sentiu bem e em paz. Ele diz que meditação não necessariamente é estar sentado num local quietão e isolado do mundo. E aí está a fórmula da felicidade, meu caro!
heheheeheh

Bjão e espero que vc tenha mais momentos felizes com suas bandas e mais bateções no seu volante surrado!
haahahaha

=D

Esquadrão SS disse...

Meu broder Caverna, excelente texto. Não mudo uma só palavra, sempre compartilhei deste exato ponto de vista. É um ponto de reflexão que todos chegam uma hora, principalmente em horas ruins, que tentamos de todas maneiras nos livrar de pensamentos ruins e achar alguma coisa boa que nos force a seguir em frente. Mas tb é nesses momentos que temos as nossas melhores epifanias e revelações intelectuais. Jogando um pouco de ciência na jogada, dá uma olhada nessa matéria:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u646767.shtml

Abraçs.

Dengoso.